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Fraudes por telefone expõem milhões de brasileiros

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Pesquisa aponta que as fraudes por telefone aparecem em 53% dos relatos de contato com golpistas, enquanto prejuízos chegam a R$ 21,2 bilhões

As fraudes por telefone continuam entre as principais ameaças enfrentadas pelos brasileiros. O relatório “O Estado dos Golpes Brasil 2026” mostra que 53% das pessoas que foram vítimas de alguma tentativa de golpe receberam contato por meio de ligações telefônicas.

O dado coloca o telefone à frente dos aplicativos de mensagens instantâneas, mencionados por 49% dos participantes. Como os entrevistados podiam indicar mais de uma forma de contato, os percentuais não representam uma divisão do total de ocorrências.

O estudo estima que 16,5 milhões de brasileiros perderam dinheiro em golpes nos últimos 12 meses. Os prejuízos foram calculados em aproximadamente R$ 21,2 bilhões, com perda média de R$ 1.287 por vítima.

Outro levantamento, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que 15,8% da população com 16 anos ou mais sofreu um golpe e perdeu dinheiro pela internet ou pelo celular. O percentual representa cerca de 26,3 milhões de pessoas.

As estimativas não devem ser comparadas diretamente, pois as pesquisas adotaram metodologias e amostras diferentes. Os resultados, porém, ajudam a dimensionar o alcance das fraudes praticadas por telefone e por canais digitais.

Em 2025, o Brasil registrou 346.753 casos de estelionato digital. Isso equivale, em média, a uma ocorrência a cada um minuto e 31 segundos.

Fraudes por telefone exploram confiança das vítimas

Uma das estratégias mais frequentes consiste em se passar por funcionário de banco. O criminoso entra em contato com a vítima, relata uma suposta movimentação irregular e oferece ajuda para proteger a conta.

O pai do produtor cultural Alexandre Diniz foi vítima desse tipo de fraude aos 87 anos. Em abril de 2025, ele recebeu mensagens de um homem que se apresentou como funcionário de uma instituição financeira.

“O suposto funcionário explicou que precisava acessar a conta do meu pai para verificar o acesso indevido. A partir de um link enviado, o golpista pôde entrar remotamente no banco”, contou Diniz.

Depois do envio do link, o criminoso telefonou para o idoso e conseguiu obter senhas e informações de acesso. Diversas transferências foram realizadas, totalizando cerca de R$ 130 mil.

“Todos nós ficamos arrasados, não só pelo montante, mas porque ele se sentiu ingênuo por ter sido pego no golpe”, afirmou o produtor cultural.

A família procurou agências bancárias, enviou uma carta ao gerente e acionou a ouvidoria. O banco identificou uma falha no bloqueio das movimentações e devolveu integralmente o dinheiro.

Para o delegado da Polícia Civil do Distrito Federal Erick Sallum, as instituições financeiras possuem recursos para reconhecer transferências fora do padrão, mas nem sempre interrompem as operações suspeitas.

“Existem casos de milhões de reais sendo movimentados de uma vez em contas que não costumam ter esse tipo de atitude para contas já conhecidas como rota de dinheiro de golpistas”, declarou.

Chamadas curtas confirmam números ativos

Parte das informações utilizadas pelos criminosos pode ter origem em cadastros preenchidos pelos próprios consumidores. Ao fornecer dados a estabelecimentos ou sites, o usuário pode autorizar, sem perceber, o compartilhamento com outras empresas.

Segundo a superintendente de Relações com Consumidores da Anatel, Cristiana Camarate, listas inicialmente obtidas de forma legal podem acabar repassadas para sistemas automatizados.

“Às vezes uma lista é conseguida de forma lícita e é passada para alguém que vai fazer um robô para ligar várias vezes e identificar quando aquela pessoa atende, se aquele número está ativo. E, a partir disso, essa lista é enriquecida e revendida”, explicou.

Muitas dessas chamadas duram até seis segundos. Robôs telefonam repetidamente para descobrir se uma linha está ativa, em quais horários o usuário atende e se o número pertence à pessoa indicada no cadastro.

A ferramenta Qual Empresa Me Ligou permite consultar a razão social e o CNPJ vinculados a determinados telefones empresariais. Entretanto, ela não consegue identificar todas as chamadas, especialmente aquelas realizadas com números falsificados, linhas de pessoas físicas ou chips registrados em nome de terceiros.

Os sistemas Android e iOS também oferecem filtros que bloqueiam ou sinalizam ligações potencialmente fraudulentas.

Mercado ilegal negocia informações pessoais

Painéis clandestinos de consulta estão entre as principais fontes ilegais de dados utilizados em golpes. Sites, perfis em redes sociais e grupos no WhatsApp ou Telegram vendem acesso a informações pessoais mediante assinatura ou pagamentos individuais.

Essas bases podem ser abastecidas por vazamentos de empresas, páginas falsas, falhas de armazenamento ou pessoas com acesso indevido a sistemas internos.

Sallum afirma que uma das descobertas feitas durante as primeiras investigações foi a presença de dados procedentes de órgãos públicos. Operadoras de telefonia, lojas virtuais e plataformas que mantêm grandes cadastros também estão entre os alvos dos criminosos.

Há ainda situações em que funcionários mal-intencionados copiam grandes volumes de informações e os colocam à venda na internet.

Inteligência artificial torna golpes mais convincentes

Ferramentas de inteligência artificial facilitaram a criação de páginas falsas e mensagens com aparência profissional. Os criminosos conseguem reproduzir a linguagem de bancos, lojas e serviços de atendimento, reduzindo erros que antes ajudavam a identificar uma fraude.

O especialista em segurança da informação Wanderley de Abreu explica que os golpistas utilizam exemplos reais para produzir mensagens altamente contextualizadas.

Quando combinadas com dados vazados, essas ferramentas permitem incluir nomes de familiares, informações bancárias e detalhes sobre compras recentes. A prática, conhecida como phishing, busca convencer a vítima a fornecer senhas, acessar páginas fraudulentas ou confirmar dados pessoais.

Também existem ligações destinadas a gravar palavras e características da voz do usuário. Posteriormente, o áudio pode ser manipulado e utilizado em novas tentativas de fraude.

Como denunciar e se proteger

O consumidor não deve fornecer senhas, códigos de confirmação ou dados bancários durante uma ligação. Ao receber um contato suspeito, a orientação é desligar e procurar a instituição por meio do aplicativo, site ou telefone oficial.

Links enviados por desconhecidos não devem ser acessados. Caso exista movimentação bancária, o banco precisa ser comunicado imediatamente para tentar bloquear as operações.

A vítima também deve registrar um boletim de ocorrência na Delegacia Eletrônica de seu estado ou procurar uma unidade da Polícia Civil. Prints, comprovantes, números telefônicos e horários das ligações devem ser preservados.

A Anatel recebe manifestações pelo aplicativo Anatel Consumidor, por seus canais digitais e pelo telefone 1331. O Procon também pode ser acionado quando o problema envolver a conduta de uma empresa.

A plataforma Não Me Perturbe ajuda a bloquear chamadas de telemarketing de empresas regularizadas, mas não foi desenvolvida para impedir golpes praticados com números falsos ou chips clonados.

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