HomeAmazôniaConflitos no campo aumentam 140% no Amazonas em 2026, aponta CPT

Conflitos no campo aumentam 140% no Amazonas em 2026, aponta CPT

Publicado em

O Amazonas registrou aumento de 140% nas ocorrências de conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (2) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O número de casos passou de 37, nos primeiros seis meses de 2025, para 52 no mesmo período deste ano.

Com o resultado, o Amazonas aparece na quinta posição entre os estados brasileiros com maior número de conflitos no campo. O Maranhão lidera o ranking, com 156 ocorrências, seguido pelo Pará, com 90; Bahia, com 85; e Rondônia, com 63.

Conflitos no campo aumentam no Brasil

Em todo o país, a CPT contabilizou 841 conflitos no campo entre janeiro e junho de 2026, contra 798 no mesmo período de 2025. Apesar do aumento das ocorrências, o número de assassinatos relacionados a conflitos agrários caiu.

Nos primeiros seis meses deste ano, foram registrados seis assassinatos no campo, enquanto 27 pessoas foram mortas no mesmo período de 2025.

Segundo a CPT, os dados do primeiro semestre ajudam a identificar as tendências dos conflitos ao longo de 2026 e serão utilizados na elaboração do relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, previsto para ser divulgado em 2027.

O levantamento é elaborado a partir de informações coletadas por agentes da CPT em diferentes regiões do país, além de notícias publicadas pela imprensa e dados divulgados por órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.

Para a coordenadora nacional da CPT, Cecília Gomes, a realidade do campo brasileiro ainda está distante de um cenário de paz, devido à necessidade de resistência das comunidades para permanecerem em seus territórios.

A entidade também aponta como uma das principais tendências a intensificação da mercantilização e da financeirização da terra. De acordo com a avaliação da CPT, fundos de pensão e interesses relacionados à exploração de recursos, como as chamadas terras raras, têm ampliado a disputa por áreas que, em muitos casos, são ocupadas por comunidades tradicionais e camponesas.

Conflitos por terra são maioria

Dos 841 conflitos registrados no primeiro semestre de 2026, a maior parte está relacionada à disputa por terra. Foram contabilizados 711 casos, além de 100 conflitos pela água e 30 ocorrências de trabalho escravo rural.

Os conflitos por terra envolvem episódios de violência e também ações de resistência, como ocupações e acampamentos. As ocorrências relacionadas à violência aumentaram de 584, em 2025, para 663 neste ano. Já os registros de resistência caíram de 66 para 48 casos, mantendo uma tendência de redução observada pela CPT ao longo dos últimos dez anos.

O Maranhão concentrou a maior quantidade de conflitos por terra, com 153 ocorrências. Na sequência aparecem Bahia, com 76; Pará, com 68; Rondônia, com 54; e Amazonas, com 52.

Entre as principais formas de violência identificadas pela CPT está a contaminação por agrotóxicos, que passou de 98 para 169 casos. Também houve aumento nos registros de invasão de territórios, de 96 para 109; desmatamento ilegal, de 67 para 107; e ameaças de despejo, de 63 para 70.

A CPT relaciona parte dessas ocorrências à expansão do agronegócio, com destaque para o Maranhão. Cecília Gomes também chamou atenção para a contaminação por agrotóxicos, que, segundo ela, pode provocar efeitos graves e prolongados sobre as vítimas.

Amazonas aparece entre os estados com conflitos pela água

Os conflitos pela água também aumentaram no país. A CPT registrou 100 ocorrências no primeiro semestre de 2026, contra 47 no mesmo período do ano passado, uma alta de aproximadamente 113%.

Os casos foram identificados em 20 estados. O Pará teve o maior número, com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais, com 11, e Amazonas e Mato Grosso, com 10 cada.

No Pará, a CPT destaca mobilizações de povos indígenas contra a privatização de rios e a atuação de garimpeiros, além de conflitos envolvendo ribeirinhos e outros povos tradicionais diante da atividade de mineradoras.

A entidade também cita a mobilização indígena que contribuiu para a revogação, em fevereiro de 2026, do Decreto nº 12.600/2025. A norma incluía as hidrovias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.

Trabalho escravo rural apresenta queda

Os registros de trabalho escravo rural apresentaram redução no primeiro semestre de 2026. Foram contabilizados 30 casos, contra 101 no mesmo período de 2025.

O número de trabalhadores atingidos também caiu, passando de 842 para 355. O maior número de trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão no primeiro semestre ocorreu em 2023, quando 1.395 pessoas foram identificadas nessa situação.

São Paulo apresentou os maiores números no primeiro semestre deste ano, com 148 trabalhadores resgatados e cinco ocorrências. Em três desses casos, os trabalhadores estavam envolvidos em atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar.

Assassinatos incluem massacre em Lábrea

Entre os seis assassinatos registrados pela CPT até junho de 2026 está o caso de três posseiras mortas em um massacre ocorrido em Lábrea, no interior do Amazonas.

Também foram registrados os assassinatos de dois indígenas, um em Roraima e outro em Mato Grosso do Sul, além de um trabalhador rural sem-terra. As vítimas tinham entre 14 e 45 anos.

Apesar da redução no número de assassinatos, a CPT destaca que uma característica observada no ano anterior permanece: a ocorrência de massacres, quando mais de uma pessoa é assassinada em um mesmo episódio.

A entidade registrou ainda aumento nos casos de violência contra pessoas, que passaram de 418 para 588. O número de vítimas subiu de 308 para 497.

A contaminação por minérios foi a forma de violência mais registrada, com 195 casos. Segundo a CPT, não havia registros dessa natureza no primeiro semestre de 2025.

Todos os casos foram registrados em Jacareacanga, no Pará, e estão relacionados ao garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós, atingindo a Terra Indígena Munduruku.

Também cresceram os registros de contaminação por agrotóxicos, que passaram de 10 para 132 casos; criminalização, de 46 para 51; e ferimentos, de 26 para 42.

Entre os grupos mais atingidos estão povos indígenas, trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.

Manifestações também aumentaram

Embora as manifestações não sejam incluídas no cálculo dos conflitos no campo, a CPT contabiliza essas mobilizações como formas de resistência das comunidades e de denúncia das violências sofridas.

No primeiro semestre de 2026, foram registradas 284 manifestações em todo o país, contra 253 no mesmo período de 2025.

Entre as ações estão atos públicos, marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias, ocupações de prédios públicos e outras mobilizações.

As principais reivindicações envolvem a demarcação de terras indígenas, o combate ao uso de agrotóxicos, oposição à mineração e à privatização das águas, além da busca por melhores condições de trabalho.

Segundo Cecília Gomes, a atuação da CPT não se limita ao registro e à denúncia dos conflitos. A entidade também acompanha comunidades e povos tradicionais em processos de resistência e busca contribuir para a construção de políticas públicas voltadas à população do campo.

A coordenadora afirmou ainda que os documentos produzidos pela CPT têm como objetivo subsidiar ações e políticas públicas relacionadas às comunidades rurais e aos conflitos registrados no território brasileiro.

Últimos Artigos

Defensoria abre seleção para residência jurídica com bolsa de R$ 2,5 mil

A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) está com inscrições abertas para o...

Lula sanciona lei que amplia licença-paternidade para até 20 dias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, nesta terça-feira (31), a Lei nº...

Marinha e SGB estudam origem das águas dos rios da Amazônia

A Marinha do Brasil (MB) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) concluíram com...

Queimadas avançam e MPC-AM recomenda reforço contra El Niño no Amazonas

Com o avanço das queimadas e a previsão de impactos associados ao El Niño...

Mais artigos como este

Defensoria abre seleção para residência jurídica com bolsa de R$ 2,5 mil

A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) está com inscrições abertas para o...

Lula sanciona lei que amplia licença-paternidade para até 20 dias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, nesta terça-feira (31), a Lei nº...

Marinha e SGB estudam origem das águas dos rios da Amazônia

A Marinha do Brasil (MB) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) concluíram com...