MapBiomas identificou impacto intenso em 2.172 localidades durante o fenômeno de 2024, enquanto 93% das áreas analisadas estavam próximas de regiões com redução da água
A seca provocada pelo El Niño atingiu de forma intensa 2.172 das 5.673 localidades habitadas analisadas na Amazônia durante o episódio de 2024. O número corresponde a 38% das áreas estudadas e revela a dimensão dos impactos do fenômeno climático sobre a população da região.
Os dados fazem parte de um levantamento divulgado nesta sexta-feira (4) pelo MapBiomas. A análise também aponta que 5.273 localidades, ou 93% do total considerado no estudo, estavam a até 5 quilômetros de áreas que registraram redução da superfície de água.
O cenário de 2024 é usado pelos pesquisadores como referência diante da previsão de que o fenômeno seja especialmente forte neste ano, com possibilidade de ocorrência de um “Super El Niño”.
Amazônia teve menos chuva e temperaturas mais altas
Entre setembro e novembro de 2024, a superfície de água na Amazônia ficou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica calculada para o período entre 1985 e 2025. A quantidade de chuva também apresentou uma redução expressiva, ficando 27% abaixo da média.
No mesmo intervalo, a temperatura máxima média alcançou um patamar 2,6ºC superior ao historicamente registrado para esses três meses.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical apresentam aquecimento. A alteração interfere na circulação atmosférica e pode tornar os volumes de chuva irregulares. Na Amazônia, o fenômeno está associado à ocorrência de seca e ao aumento das temperaturas.
Para o pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Bruno Ferreira, da equipe da Amazônia do MapBiomas, a combinação entre calor e menor precipitação intensifica a perda de água.
“Menos chuva e temperaturas mais elevadas aumentam a demanda evaporativa na atmosfera, favorecendo a perda de água do solo e o estresse hídrico da vegetação”
Impactos alcançaram diferentes áreas de ocupação
O levantamento considerou diferentes formas de ocupação humana na Amazônia. Entre elas estão núcleos urbanos e rurais, territórios indígenas, quilombolas, assentamentos e outras categorias.
A proximidade das áreas habitadas com regiões que perderam superfície de água também chama atenção. Das 5.673 localidades consideradas na pesquisa, 5.273 estavam a uma distância de até 5 quilômetros desses pontos.
A redução dos níveis dos rios é outro efeito associado à estiagem e pode afetar atividades diretamente relacionadas aos sistemas fluviais.
“A seca também se manifesta na redução dos níveis dos rios, com consequências para o transporte, o acesso à água, a pesca e outras atividades que dependem dos sistemas fluviais”, destaca Bruno Ferreira.
Perda de vegetação amplia o contexto da seca
O estudo também levou em consideração as transformações ocorridas na cobertura e no uso da terra ao longo da série histórica analisada.
Em 41 anos, a Amazônia perdeu 3,9 milhões de hectares de vegetação nativa. Segundo os dados utilizados no levantamento, isso representa uma redução de 14% da cobertura verde que existia anteriormente.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram informações de chuva e de superfície de água sobre a terra. Foram utilizados dados da Coleção 11 do MapBiomas, referente à Cobertura e Uso da Terra, da Coleção 5, sobre Água, e da coleção beta, sobre Atmosfera.
Também entraram na análise dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre áreas habitadas e informações do Painel El Niño, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Os resultados do levantamento permitem dimensionar como a Amazônia respondeu ao El Niño de 2024 e oferecem uma referência para a exposição das áreas habitadas diante da previsão de um novo episódio de forte intensidade neste ano.


