Dormir menos do que o necessário de forma recorrente pode prejudicar o funcionamento do cérebro e do organismo. Embora algumas pessoas tenham características genéticas que permitem uma rotina saudável com poucas horas de descanso, a privação de sono por hábito apresenta riscos diferentes.
O sono é responsável por uma série de processos fundamentais para o corpo. Durante o período de descanso, o organismo restaura energia, participa da eliminação de toxinas e consolida funções relacionadas à aprendizagem e à memória.
A necessidade média de sono fica entre 7,5 e 8,5 horas por noite. Mesmo assim, dormir pouco ainda é associado, em alguns casos, a uma rotina de produtividade intensa. A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, por exemplo, afirmou dormir entre zero e três horas por noite desde que assumiu o cargo.
Para Ying-Hui Fu, pesquisadora do sono da Universidade da Califórnia em São Francisco, a privação extrema pode comprometer a sobrevivência.
“Existem apenas duas coisas mais importantes para a nossa saúde do que o sono”, diz Fu. “Uma é o ar. Sem ar, morremos em poucos minutos. A outra é a água. Sem água, morremos em poucos dias. Sem comida, conseguimos viver por meses. Mas sem sono provavelmente sobreviveríamos apenas algumas semanas”.
A pesquisadora também destaca que a necessidade de dormir não é exclusiva dos seres humanos. “E isso vale para todos os animais”, acrescenta. “se não dormimos, morremos”.
O cérebro também sofre com a privação de sono
A relação entre sono e funcionamento cerebral é uma das principais preocupações dos pesquisadores. Segundo Fu, diferentes doenças neurológicas e psiquiátricas podem estar associadas a problemas relacionados ao descanso.
“O sono envolve muitas partes do cérebro”, afirma a pesquisadora. “Quase todas as doenças cerebrais, incluindo as neurológicas e psiquiátricas, podem estar associadas a problemas de sono”.
A falta de descanso por períodos prolongados pode levar ao acúmulo de toxinas no organismo e elevar o risco de doenças cardíacas e cerebrais. Por isso, a redução voluntária do tempo de sono não deve ser confundida com uma necessidade biológica menor de determinadas pessoas.
Percepção sobre o sono pode enganar
Um dos aspectos que chamam a atenção dos pesquisadores é a dificuldade que uma pessoa privada de sono pode ter para perceber o próprio nível de cansaço.
Catia Reis, pesquisadora do sono da Universidade de Lisboa, estudou essa diferença ao comparar avaliações feitas pelos próprios participantes de pesquisas com resultados obtidos em testes clínicos.
“Quando você está privado de sono, seu julgamento piora”, afirma Catia Reis.
Em uma das pesquisas, foram comparados pacientes com apneia do sono, condição caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante a noite, e pessoas que trabalham em turnos. O resultado mostrou que, à medida que a sonolência aumentava, a capacidade dos participantes de avaliar corretamente o próprio estado diminuía.
Isso significa que alguém pode acreditar estar funcionando normalmente mesmo quando o organismo já apresenta sinais de déficit de sono.
Um comportamento comum também pode revelar esse acúmulo. Pessoas que afirmam se sentir bem durante a semana podem dormir por mais tempo nos fins de semana, o que, segundo Catia Reis, representa um sinal de déficit acumulado.
Dispositivos de monitoramento também podem influenciar a percepção sobre o descanso. Alertas sobre horários para dormir e avaliações negativas da qualidade do sono podem aumentar a ansiedade, acelerar os batimentos cardíacos e dificultar o adormecimento.
Por outro lado, uma noite classificada como ruim pelos indicadores de um dispositivo nem sempre significa que haverá cansaço ou prejuízo no funcionamento no dia seguinte.
Algumas pessoas precisam naturalmente de menos horas
A ciência também conhece uma exceção à regra. Algumas pessoas conseguem dormir menos de seis horas por noite e, ainda assim, apresentam boa saúde, disposição e qualidade de vida. São os chamados “dormidores naturais de curta duração” (natural short sleepers).
Os pesquisadores acreditam que variações genéticas estejam relacionadas a essa capacidade. Fu cita o caso de uma pessoa de 80 anos que apresentava essa característica e continuava participando de provas de triatlo.
Em 2009, o laboratório da pesquisadora identificou a primeira variação relacionada ao fenômeno no gene DEC2. Dez anos depois, um estudo apontou uma possível ligação entre a síndrome do sono curto natural e o gene ADRB1. Outras variantes foram posteriormente identificadas nos genes NPSR1, GRM1 e SIK3, entre outros que continuam sendo estudados.
As funções desses genes são diferentes. O DEC2 participa da regulação dos ciclos de sono e vigília. O ADRB1 está relacionado à sinalização cardíaca e neuronal. O NPSR1 contribui para a regulação dos estados de alerta e ansiedade. O GRM1 está ligado ao funcionamento cerebral e pode ter relação com a depressão. O SIK3 participa da regulação celular, metabólica e inflamatória.
Os pesquisadores preferem utilizar a expressão “variações” genéticas em vez de “mutações”, pois o segundo termo costuma estar associado a efeitos negativos sobre a saúde. Até agora, os dormidores naturais de curta duração não aparentam apresentar os mesmos riscos das pessoas que dormem pouco por hábito ou por privação.
Estudos sobre dormidores naturais ainda são limitados
Apesar das descobertas, os pesquisadores ainda não conseguem explicar completamente o fenômeno. Uma das dificuldades está na enorme quantidade de variações existentes no genoma de cada indivíduo.
“Cada indivíduo possui entre 500 e 1.000 variações exclusivas em seu genoma. Identificar qual delas realmente causa determinado efeito é extremamente difícil”, explica Fu.
Muitas das descobertas foram feitas a partir do acompanhamento de famílias que compartilham determinada variação genética. Quando vários parentes apresentam a mesma característica e permanecem saudáveis dormindo apenas quatro a seis horas por noite, existe uma forte indicação de relação entre a variação e o padrão de sono.
Fu acredita que essas pessoas possam ter uma qualidade de sono superior.
“Sabemos que essas pessoas têm melhor desempenho e são mais saudáveis. A explicação mais lógica é que a qualidade do sono delas é superior”, diz Fu.
Catia Reis, porém, ressalta que ainda existem poucos estudos sobre o grupo. Ela também destaca que pesquisas realizadas com pessoas que dormem pouco por hábito mostram melhora de desempenho quando o tempo de sono é ampliado.
“Quando avaliamos pessoas que dormem pouco por hábito e aumentamos seu tempo de sono, percebemos que elas melhoram seu desempenho”, afirma. “O problema é que ainda não temos estudos de longo prazo suficientes com os dormidores naturais.”
Fu concorda com a necessidade de ampliar as pesquisas e afirma que o financiamento continua sendo um desafio.
“Meu objetivo é ajudar todas as pessoas a terem um sono de qualidade. Porque, se conseguirmos isso, a incidência de todas as doenças diminuirá”, diz. “Todo o espectro de doenças seria reduzido. Você consegue imaginar o impacto disso para a humanidade?”.


