Produtores ampliam investimentos em geração solar, biogás e biometano para controlar custos e aproveitar novas oportunidades de receita.
A energia limpa no campo deixou de ser tratada apenas como uma alternativa ambiental e passou a fazer parte do planejamento financeiro das propriedades rurais. Pressionados pelos gastos com eletricidade e óleo diesel, produtores de diferentes portes buscam soluções capazes de reduzir custos, aumentar a autonomia das operações e abrir novas fontes de receita.
A mudança no comportamento do setor foi discutida durante o Super Agro 2026, evento promovido pela Exame. Especialistas e lideranças do agronegócio analisaram o avanço da transição energética nas atividades agropecuárias e as condições necessárias para que essas tecnologias alcancem uma parcela maior dos produtores brasileiros.
Entre as alternativas que ganham espaço estão os sistemas de energia solar, a geração de biogás a partir de resíduos orgânicos, a produção de biometano e a eletrificação de máquinas e veículos utilizados no campo.
Energia limpa no campo melhora previsibilidade financeira
O interesse pelas fontes renováveis está diretamente relacionado à necessidade de aumentar a eficiência das propriedades. Em muitas atividades rurais, os gastos com energia elétrica e combustíveis representam uma parte relevante dos custos de produção.
A geração própria permite reduzir a dependência do fornecimento convencional e oferece maior proteção contra oscilações de preços. A economia pode ser percebida em operações como irrigação, refrigeração de leite, armazenamento de produtos e funcionamento de equipamentos agrícolas.
Durante o painel, foi destacado que a rentabilidade continua sendo o principal fator considerado pelo produtor antes da realização de um investimento. Os benefícios ambientais surgem associados à busca por eficiência e segurança financeira.
A energia fotovoltaica permanece como uma das tecnologias mais acessíveis e consolidadas. Os painéis podem ser instalados em telhados de galpões ou em áreas de solo destinadas a pequenas usinas, de acordo com o consumo e a estrutura disponível na propriedade.
Biogás transforma resíduos em combustível
Outra frente com potencial de crescimento é o aproveitamento dos resíduos gerados pela produção de proteína animal. Materiais que antes exigiam custos de tratamento podem ser utilizados para produzir energia térmica, eletricidade e combustível.
Na suinocultura e na avicultura, por exemplo, o tratamento dos efluentes permite a geração de biogás. Esse recurso pode ser usado na própria propriedade, diminuindo despesas e reduzindo problemas ambientais relacionados ao descarte inadequado dos resíduos.
Depois de purificado, o biogás dá origem ao biometano. O combustível renovável pode substituir o óleo diesel em tratores, caminhões e outros veículos empregados na produção e no transporte agrícola.
Essa utilização reduz a dependência de combustíveis fósseis e permite que resíduos da atividade rural sejam transformados em ativos econômicos. O produtor pode gerar energia para consumo próprio ou desenvolver novos modelos de negócio relacionados ao fornecimento de combustível.
Redes de distribuição ainda representam obstáculo
A expansão dessas tecnologias, entretanto, ainda enfrenta limitações de infraestrutura. Problemas de conectividade no meio rural e a capacidade insuficiente das redes de distribuição para receber a eletricidade produzida nas propriedades estão entre os principais gargalos identificados pelo setor.
Mesmo quando há interesse e recursos para investir, produtores podem encontrar dificuldades para conectar seus sistemas ou aproveitar toda a energia gerada. A solução depende de melhorias realizadas pelas concessionárias e de investimentos públicos em infraestrutura.
O financiamento também aparece como um fator decisivo. A avaliação apresentada durante o evento é que linhas de crédito específicas, acessíveis e menos burocráticas podem ampliar a participação de pequenos e médios produtores na transição energética.
Sem condições adequadas de financiamento, existe o risco de que os projetos permaneçam concentrados em propriedades de maior porte e em grupos agrícolas com maior capacidade de investimento.
Com a evolução das tecnologias e o amadurecimento do mercado, o campo brasileiro tende a ampliar sua participação na matriz energética nacional. Além da produção de alimentos, as propriedades rurais podem ganhar relevância como fornecedoras de eletricidade e combustíveis de origem renovável.


