Um filhote de peixe-boi-da-Amazônia (Trichechus inunguis) foi resgatado após ser ferido por arpão em Itacoatiara, município a 176 quilômetros de Manaus. A ação foi realizada na quinta-feira (23/04) pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, com apoio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente local (Semma). O animal, uma fêmea ainda jovem, apresentava lesões na região dorsal, indicativas de tentativa de caça ilegal.
O resgate mobilizou uma equipe técnica especializada da Gerência de Fauna Silvestre (GFAU), composta por motorista com veículo adaptado, biólogo e médico-veterinário. Toda a operação, incluindo o deslocamento entre a capital e o município, o atendimento inicial e o retorno, durou cerca de oito horas.
Segundo o diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço, a ação conjunta entre órgãos estaduais e municipais é essencial para combater crimes ambientais e garantir a proteção da fauna. Ele destacou que iniciativas desse tipo contribuem não apenas para o salvamento de animais, mas também para a conscientização da população e o fortalecimento da fiscalização.
Filhote de peixe-boi foi estabilizado antes do transporte
O animal foi encontrado por um pescador em uma área de acesso ao rio Arari. Após o resgate inicial, ele foi levado até a sede da Semma em Itacoatiara, onde permaneceu por aproximadamente 20 horas em uma caixa d’água adaptada, recebendo os primeiros cuidados até a chegada da equipe do Ipaam.
Durante o transporte terrestre até Manaus, o filhote foi mantido envolvido em toalhas umedecidas e recebeu hidratação a cada dez minutos — um procedimento fundamental para preservar suas condições de saúde durante o deslocamento.
De acordo com o secretário municipal de Meio Ambiente de Itacoatiara, Leonardo Rocha, a atuação do pescador foi determinante para o sucesso da operação. Ele ressaltou que o cuidado no transporte inicial garantiu que o animal chegasse em condições adequadas para atendimento especializado.
Atendimento no Inpa e início da reabilitação
Após chegar à capital, o filhote foi encaminhado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, onde está sob os cuidados da Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), no Laboratório de Mamíferos Aquáticos.
Segundo o biólogo Gilson Tavernard, da GFAU, o peixe-boi-da-Amazônia é uma espécie classificada como vulnerável à extinção. Entre as principais ameaças estão a caça ilegal, a degradação do habitat e a captura de filhotes. Ele também destacou a importância ecológica da espécie, que contribui para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos ao ajudar na manutenção da vegetação e da qualidade da água.
O médico-veterinário Eduardo Marques explicou que o processo de reabilitação é longo e envolve várias etapas. Inicialmente, o animal passa por exames clínicos e laboratoriais para avaliação completa do estado de saúde. Em seguida, é monitorado continuamente.
Processo de recuperação pode levar até oito anos
Nos primeiros anos, o filhote permanece em um “berçário”, onde ocorre o desmame gradual — com a substituição do leite artificial por alimentação baseada em vegetais e gramíneas. Posteriormente, o animal é transferido para tanques maiores, onde continua sob acompanhamento até atingir o desenvolvimento necessário.
Na fase final, o peixe-boi é levado para uma área de semicativeiro, onde passa por um período de adaptação antes de uma possível reintrodução na natureza. Todo o processo pode durar entre seis e oito anos.
Casos como este reforçam a importância da participação da população na proteção da fauna silvestre. Situações envolvendo animais feridos ou em risco podem ser comunicadas à Gerência de Fauna Silvestre do Ipaam pelo telefone (92) 98438-7964, com informações detalhadas sobre localização e estado do animal.


