O combate ao crime organizado na região amazônica alcançou um novo marco nesta semana. Através de um monitoramento rigoroso e ações de campo, a operação de repressão ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami contabilizou a destruição de 80 pistas de pouso clandestinas. O trabalho, que integra inteligência de satélite e intervenções táticas das Forças Armadas, revelou que essas estruturas não apenas facilitam a extração de minérios, mas servem como pontos de conexão para rotas internacionais de contrabando rumo à Venezuela.
Na última terça-feira, 17 de março de 2026, as equipes militares concentraram esforços na interdição da pista Lobo D’Almada, em Iracema, no sul de Roraima. O local é considerado um ponto nevrálgico para o garimpo ilegal, funcionando como um centro de redistribuição de suprimentos e escoamento de produção a apenas 82 quilômetros da fronteira venezuelana. O mapeamento realizado pela inteligência aponta que outras áreas, como as pistas Dicão, Capixaba e Pupunha, desempenham papel semelhante na rede de logística criminosa.
Interdição tática e uso de explosivos
A inutilização definitiva dessas vias exige uma operação de engenharia complexa. Na pista Lobo D’Almada, foram empregados 350 quilos de explosivos, detonados em perfurações de dois metros de profundidade para gerar crateras intransponíveis. O uso dessa técnica é essencial para combater a reincidência, visto que grupos ligados ao garimpo ilegal tentam rotineiramente recuperar as áreas com aterros improvisados de madeira e terra, como ocorreu nesta mesma localidade no final de 2025.
A mobilização para garantir o sucesso da missão envolveu o uso combinado de aeronaves das três forças: o helicóptero H-60 Black Hawk (Aeronáutica), o HM-1 Pantera (Exército) e o UH-15 Super Cougar (Marinha). Ao todo, foram consumidos 4.200 litros de combustível em mais de 13 horas de operação aérea, demonstrando o alto custo e a necessidade de precisão nas ações em áreas de difícil acesso na floresta.
Monitoramento por satélite e o recuo do garimpo ilegal
A eficácia da Operação Catrimani II baseia-se na coordenação de dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). O uso de imagens de satélite permitiu uma redução de mais de 98% na atividade garimpeira ostensiva desde 2024. O balanço das apreensões e destruições mostra uma cronologia de asfixia: 50 pistas foram eliminadas em 2024, 25 no ano seguinte e cinco nos primeiros meses de 2026.
Segundo Nilton Tubino, diretor da Casa de Governo em Roraima, a pressão das autoridades provocou uma mudança no comportamento dos infratores. Com a fiscalização intensa dentro do território indígena, o crime organizado passou a buscar suporte externo, utilizando a proximidade com a Venezuela para manter a viabilidade econômica das operações ilícitas.
Camuflagem e novas estratégias criminosas
Apesar dos avanços, o cenário impõe desafios constantes devido à imensidão da reserva Yanomami, cujo território supera a área de Portugal. Relatos militares indicam que o garimpo ilegal tem adotado táticas de camuflagem para reduzir sua “digital” no terreno, ocultando maquinário sob a vegetação densa para evitar o rastreamento aéreo.
Além disso, a fiscalização identificou que mais de 30 estradas vicinais fora da reserva estão sendo adaptadas para funcionar como pistas de pouso improvisadas. Essa migração para o entorno do território indígena visa contornar o bloqueio logístico imposto pelas Forças Armadas, exigindo que o Estado mantenha o monitoramento constante não apenas nas áreas protegidas, mas também nas vias de acesso rurais que servem de suporte para a extração mineral clandestina.


