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    Especialistas: fim de isolamento no Brasil pode levar a cenário dos EUA

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    Se os estados e cidades suspenderem o isolamento social, ou as pessoas desrespeitarem a recomendação de ficar em casa, o Brasil pode ter um cenário igual ao dos Estados Unidos, o novo epicentro da pandemia do novo coronavírus. É o que alerta um grupo de pesquisadores brasileiros do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS). Segundo eles, sem as medidas de contenção, o país pode ter 267 mil casos de covid-19 até o dia 17 de abril — em cálculo realizado no início da semana.

    Novas projeções feitas pelo NOIS, que reúne pesquisadores da Fiocruz, PUC-Rio e IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino), mostram que o Brasil pode variar de 25 mil a 60 mil casos confirmados até o dia.

    Para fazer esse alerta, os pesquisadores se basearam na curva de crescimento do Brasil a partir do 50º caso confirmado até 22 dias depois (D22), quando o país atingiu 7.910 casos. No mesmo período de tempo, os EUA tinham 7.087 casos. Os pesquisadores então analisaram o crescimento dos EUA do D23 até o D38, que foi em 2 de abril. Nesse dia, o país da América do Norte contava com 213.600 confirmados.

    A partir dessa análise, se o Brasil continuar em um ritmo de crescimento semelhante ao dos EUA e sem as medidas de contenção, a tendência é ter um futuro semelhante. “Caso o Brasil siga exatamente o mesmo crescimento da covid-19 dos EUA entre o D23 e o D37, poderia chegar a 267 mil caso.

    “No entanto, destaca-se que esta não é uma projeção de crescimento no Brasil, mas um alerta para a importância da manutenção das medidas de isolamento da população”, finalizam os pesquisadores.

    O epicentro da pandemia Os EUA têm 395 mil casos confirmados e quase 13 mil óbitos em decorrência do novo coronavírus, de acordo com balanço divulgado ontem pelo CDC (Centro de Controle de Doenças). A curva de crescimento disparou no meio de março, e hoje os norte-americanos são o novo epicentro da pandemia.

    Projeções apontam que esta deve ser a pior semana para os americanos, e o país deve atingir o pico entre os dias 9 e 15 de abril. A ausência de testes, recursos médicos e leitos disponíveis são o que têm elevado as projeções futuras.

    A principal razão apontada por especialistas para esse crescimento exponencial muito superior ao dos demais países é a subnotificação. Os EUA demoraram a aplicar testes da doença para todos — principalmente devido ao preço, já que não há um sistema público universal de saúde —, o que manteve os números baixos por muito tempo, enquanto a transmissão ocorria sem ser notada.

    Além disso, o presidente americano, Donald Trump, ignorou a ameaça da doença no começo, chegando a comparar a covid-19 com “uma gripe comum”. Documentos revelados pelo jornal The New York Times mostraram que Trump foi avisado em janeiro sobre a gravidade da doença, mas ignorou o alerta. O país aplicou medidas, como o isolamento social, tardiamente, e até hoje alguns estados ainda não adotaram restrições.

    O Brasil, por outro lado, tomou medidas para frear a disseminação do coronavírus antes mesmo que o primeiro caso fosse confirmado. Ainda assim, faltam testes, o que tem causado subnotificação de casos, e as medidas de contenção não têm sido um consenso.

    O isolamento social foi adotado por estados e cidades, seguindo recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde. Porém, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defende a flexibilização do distanciamento social, alegando que a medida provocará um colapso econômico. Tal como Trump, ele chamou a covid-19 de “gripezinha”.

    Os isolamentos estaduais começaram entre o meio e o fim de março e muitos terminariam nesta semana, porém alguns estados, como São Paulo, já prorrogaram por mais 15 dias.

    Projeções para 20 de abril

    O Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde fez projeções para o Brasil até o dia 20 de abril. São resultados menos alarmantes. Na média, o grupo de pesquisadores projeta que o país deve ter 40.984 casos de covid-19 até lá. Em um cenário pessimista, poderia chegar a 47.740, e no otimista, a 35.298.

    Para fazer essas projeções, os pesquisadores consideraram o ritmo de crescimento da doença em alguns países, a partir do seu D23 (23º dia após 50 casos confirmados). Foram escolhidas as seguintes nações: Itália, Espanha, França, Alemanha, Suíça e Reino Unido, pois, segundo o documento, apresentam taxas de crescimento similares às do Brasil até o D19.

    A comparação também permitiu aos pesquisadores projetar dois novos cenários: o Pior Caso e o Melhor Caso, baseados no pior e no melhor comportamento desses países. No pior, o Brasil passaria de 60 mil casos até o dia 20 de abril e apresentaria o pior cenário comparado aos outros países. No melhor caso, teria 25.614 confirmados e seria o melhor país.

    Essas projeções foram feitas no último dia 2 e contemplam do dia 3 ao dia 20 de abril. Ontem (dia 8), o Brasil registrou quase 16 mil casos, segundo o Ministério da Saúde, um número ainda dentro das projeções otimistas do grupo.

    “Visto que medidas de contenção foram implementadas nas últimas semanas, é possível que sua eficácia possa influenciar na desaceleração das taxas de crescimentos ao longo dos próximos dias”, afirma o documento.

    Até o dia 3, o Brasil apresentou taxa de crescimento menor do que todos os países comparados. Um feito que o grupo atribui às medidas de contenção regionais, mas também pode ser resultado da subnotificação causada pela baixa testagem e demora no resultado de exames.

    Desses países, Espanha, França e Suíça adotaram medidas de contenção mais rígidas, como o isolamento completo antes do D20. Já Alemanha, Itália e Reino Unido tomaram ações um pouco mais tarde, depois do D20 — a Itália foi no D29 apenas. “Estas medidas podem ter freado o crescimento da epidemia.”

    Todas essas projeções feitas para o Brasil consideram que o país irá manter as medidas de isolamento regionais ou até expandir para o nível nacional. Caso contrário, o cenário pode ser igual ao dos EUA.

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    *Reportagem do UOL

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