Quantas curtidas vale a dor de uma família?

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(Créditos: Stringer/Reuters)

Chegamos ao fim de uma semana em que os noticiários impressos, televisivos e digitais pautaram a morte. O que não é novidade nos meios de comunicação em massa, onde a tragédia é a isca principal para fisgar a atenção do público.

Na segunda-feira (27), o país amanheceu com esse tema em alta, sendo um deles fruto de uma crise já anunciada e outra não, a morte precoce de um cantor jovem em um avião.

De certo você ouviu Jenifer em 2019. Sim, aquela do Tinder que faz umas paradas. O autor da canção mais tocada no carnaval, Gabriel Diniz, tinha 28 anos e, além de uma carreira, também tinha uma vida promissora – assim como a de todos nós, que foi interrompida em um acidente de avião na última segunda-feira (27).

As imagens do corpo de Gabriel, e outras vítimas do acidente, foram compartilhadas pelas redes sociais logo após o acidente que aconteceu durante uma viagem surpresa que faria para ver sua namorada, que fazia aniversário. Após o acidente, a namorada de Gabriel deletou sua conta no Instagram, enquanto usuários compartilhavam fotos via WhatsApp.

Na mesma segunda-feira, acontecia em Manaus um dos maiores massacres em presídios do Estado. Foram mais de 55 assassinatos motivados por uma briga interna da facção Família do Norte (FDN), que também esteve envolvida no massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) há dois anos, onde 56 detentos foram assassinados de forma brutal e animalesca.

Também foram compartilhadas imagens dos corpos sem vida dos detentos, além de vídeos e áudios de autoria duvidosa em diversos grupos de WhatsApp.

É possível que esses conteúdos não tenham chegado até seu celular, talvez seus amigos tenham te poupado por pensarem na sua saúde mental ou somente porque eles tenham mais o que fazer, o que também já é ótimo.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Ao se perguntar o que uma tragédia envolvendo um cantor sertanejo no Nordeste tem a ver com chacinas espalhadas pelo sistema penitenciário do Amazonas, nós do Portal Projeta respondemos:

A internet. Essa ferramenta revolucionária de comunicação que transforma os acontecimentos coletivos em uma grande sala de estar.

Nesta grande sala de bate-papo existem usuários que sentam no sofá de maneira consciente do espaço alheio, com cuidado, questionando se o colega está confortável. Já outros, abrem as pernas sem se preocupar em esmagar quem está ao lado, sempre em busca daquele lugar que ele considera ser o melhor no estofado.

Alcance

Maria Fernanda Costa tem 23 anos e foi uma das centenas de usuárias da rede que recebeu em seu WhatsApp áudios e vídeos com uma suposta ameaça.

“Nos vídeos era um cara morto num supermercado em um bairro da Zona Leste, estirado no chão em uma poça de sangue com a polícia em volta, os áudios eram de ameaças das gangues daqui em relação ao bairro onde eu moro e vários outros bairros também”, contou a publicitária.

A mesma situação aconteceu com Nayane Bermeu, que ao receber o conteúdo, pediu para o emissor que parasse de enviar arquivos daquela natureza. “Pedi que a pessoa parasse de alimentar esse tipo de corrente que mexe com a vida das pessoas, não compartilhar a dor de ninguém”, contou a estudante que recebeu áudios em que a polícia estaria supostamente fazendo chacota da situação nos presídios manauaras.

Ilustração: Huíolla Ribeiro

Em Maria Fernanda o efeito surtiu diretamente em seu direito à segurança. “Me senti apavorada quando ouvi o nome do meu bairro, tenho evitado sair de casa. Outro vídeo que me mandaram eram de pessoas envolvidas comemorando, soltando fogos de artifício e isso era praticamente do lado da minha casa, então eu prefiro evitar”.

Questionada sobre uma maneira de evitar que os conteúdos cheguem até ela, a publicitária cogitou ações de formação, como palestras. “Muita gente gosta de transmitir esse tipo de informação como se fosse um privilégio ter os áudios, vídeos, fotos etc. Acredito que o que poderia fazer seria de alguma forma tentar conscientizá-las, através da informação que podia vir em palestras”, sugeriu.

Violação

Marcos Fuchs é diretor da ONG Conectas e do Instituto Pro Bono, duas gigantes brasileiras quando o assunto é Direitos Humanos. O advogado também integrou o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), sua demissão aconteceu durante uma renúncia coletiva de mais sete membros do órgão que rejeitam a atual política carcerária proposta por Alexandre de Moraes.

Durante uma entrevista por telefone com o Portal Projeta, Marcos pontuou sobre a questão dos presídios em Manaus e também falou especificamente sobre a situação de violação que ocorre através das redes.

“Você tem direito a privacidade como ser humano e isso está sendo sistematicamente violado. Não houve autorização por parte da família. Como o poder público permite a circulação dessas imagens? É lamentável que se naturalize num momento de uma tragédia familiar a exposição dessa forma na Internet” manifestou Fuchs.

“Todos nós que respeitamos e acreditamos na permanência dos Direitos Humanos temos a obrigação de denunciar e ocupar esse papel que é fundamental numa democracia”, COMENTOU.

 

Sociedade-Espetáculo

Bruna Borges é professora universitária com mestrado em Processos Psicológicos e Saúde, além de cursar doutorado em Antropologia.

O Portal Projeta convidou a profissional para comentar, pelo viés da Psicologia, o que leva uma significante parcela da sociedade a normalizar a dor da família alheia na Internet.

Projeta: Como você acredita que a Psicologia pode explicar esse tipo de reação?

Bruna: São fenômenos que se dão por uma comunicação instantânea, as informações saem de aplicativos e mudam a forma como as pessoas se relacionam com as imagens que chegam até elas, esse imediatismo midiático acompanha as pessoas em suas relações também. As pessoas deixam de buscar socorro numa situação para poder filmá-la.

A imagem media a linguagem na sociedade do espetáculo, é através dela que o sujeito se posiciona diante do evento, aquela imagem o leva a um lugar e uma história. Estamos em um momento histórico onde as imagens podem mascarar e também denunciar.
Projeta: Quais efeitos você acredita que as postagens podem causar nas famílias?
Bruna: Uma pessoa não precisa estar diretamente ligada a um evento traumático pra ter sofrimento psíquico com ele. É possível analisar isso tanto no coletivo quanto no individual. Vamos supor que você tenha um irmão que esteve preso e que estava sob a tutela do Estado. Idenpendente do que as pessoas narrem, compartilhem ou concluam, continuaria se tratando de episódio que tirou a vida de seu irmão.
O compartilhamento dessas imagens faz com que o processo de luto dessas famílias fique comprometido por conta dessa repetida propagação do corpo no estado diferente daquele que conheceram.
Projeta: Como o fenômeno se explica com as imagens do cantor Gabriel?
No caso do Gabriel Diniz o internauta se apropria da imagem de maneira diferente, em tom de homenagem, um público que sente muito por aquilo, transmite outro valor. Uma família na favela ou no presídio produz um imaginário de criminoso: pessoas que não fariam diferença na sociedade e sugere que não há dor.
É banalização de uma violência ou um estado caótico que faz parte do cotidiano das pessoas. Quando eu compartilho isso na rede social eu espero ser porta voz daquela situação, é uma validação dentro de um grupo social.
O caso da chacina envolve aspectos políticos bem marcados para que os corpos sejam expostos sem que haja compreensão de que são seres humanos. E é importante ressaltar que se trata de um crime, as pessoas estão sendo violadas em seus afetos e memórias familiares.