Cientistas acreditam que nova cepa descoberta no Brasil é mais letal

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A variante brasileira, que já pode ter se espalhado pelo país, gera dúvidas que a Fiocruz vem trabalhando para esclarecer em estudo do genoma das versões do coronavírus (foto: Pixabay/Reprodução)

O vírus causador da COVID-19 evolui sem dar trégua às preocupações dos cientistas, num momento que poderia trazer alívio maior com a chegada da vacina. Desde o princípio da pandemia, foram identificadas cerca de 800 linhagens do Sars-CoV-2.

O receio surge quando uma variante toma proporções de transmissão significativas, como ocorreu com as novas versões identificadas no Reino Unido, na África do Sul, e, agora, no Brasil. Ainda que a compreensão sobre o comportamento do novo coronavírus não seja perfeita, a rapidez na disseminação é uma das características das novas cepas.

Essa constatação leva também a questionamento sobre a eficiência das vacinas, além de evidenciar, quando se pensa no Brasil, as limitações em vigilância e monitoramento, e a importância de mapear a ocorrência das versões mutantes do coronavírus, que se espalham no país.

A exemplo do caos que se instaurou em Manaus, onde a variante brasileira foi detectada em dezembro, o temor é de que a situação se torne ainda mais severa em todo território nacional.

O Brasil pode enfrentar um quadro ainda mais grave em relação à aceleração no número de casos da doença respiratória, na avaliação do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Ele chamou de megaepidemia a situação que pode ocorrer no país nos próximos 60 dias, como reflexo do surgimento da variante em Manaus, que parece ter um grau de transmissibilidade maior em relação à primeira cepa.

“Temos mais uma crise. Essa nova variante em Manaus, em que o mundo inteiro está fechando os voos para o Brasil e estamos enviando pacientes para outros estados sem fazer os bloqueios de biossegurança. Provavelmente, a gente vai plantar essa cepa em todos os territórios da Federação e daqui a 60 dias a gente pode ter uma megaepidemia”, pontuou, em entrevista ao programa Manhattan Connection, da TV Cultura.

Apesar de a variante brasileira ter sido identificada em Manaus e começado a aparecer em outros estados, o pediatra e infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), diz que o termo epicentro não é adequado, já que, a essa altura, o vírus mutante está disseminado no país.

A dificuldade na detecção se deve ao fato da baixa capacidade de testagem. Segundo ele, menos de 0,1% das cepas isoladas são sequenciadas geneticamente no Brasil. E não é possível saber qual variante será dominante em qual período de tempo, ainda que existam especulações nesse sentido.

De todas as mutações ocorridas até o momento do novo coronavírus, quando se fala mais em uma ou outra, isso depende da proporção que toma. “Chama a atenção quando aumenta muito o poder de transmissão. Em muitos casos, a transmissão é mais rápida que a capacidade de identificá-lo”, destaca Renato Kfouri.

Até o momento, o infectologista explica que permanece a eficácia das vacinas para as novas variantes. “Ainda assim, a propagação das novas versões do vírus aumenta o número de casos, mais leves, moderados ou graves, aumenta a pressão nos sistemas de saúde”, diz.

Ansiedade

A identificação da variante brasileira do coronavírus, chamada P.1, está gerando ansiedade e dúvidas entre a população, como avalia o infectologista Estevão Urbano, do Comitê de Enfrentamento à COVID-19 de Belo Horizonte. Em contato com os médicos que estão na linha de frente em Manaus, ele conta que as impressões são de que o novo tipo, além de ser de mais rápida propagação, também é mais agressivo – mas se trata de impressões, nada ainda cientificamente comprovado.

“A nova cepa pode ter contribuído para agravar o caos na cidade. Não foi identificada logo no início e hoje mais de 50% das pessoas infectadas em Manaus são pela variante. O número de óbitos por lá está no patamar mais grave até agora. É fundamental manter a cautela”, diz Estevão Urbano.

O infectologista critica o fato do governo federal, até o momento, não ter adotado medidas concretas para barrar o caminho do vírus mutante. Enquanto diversos países restringem voos e a entrada de brasileiros, pessoas vindas de Manaus, por exemplo, circulam livremente entre os estados.

“As novas cepas são motivo de preocupação mundial. Temos que estar vigilantes até ter certeza absoluta se é mais transmissível ou mais letal. Não temos estudos, e precisamos ter antes de o caldo entornar. O Brasil tem que adotar protocolos de acompanhamento e mapeamento dessa cepa. O que ocorre em Manaus pode acontecer no país todo”, alerta.

Esforço conjunto

Por outro lado, a virologista Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), pontua que o instituto vem trabalhando em redes de estudo sobre o genoma das versões do coronavírus, junto a outras frentes de atuação do Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

“Em todo país vem sendo feito um grande esforço nesse sentido. Temos amostras sendo analisadas em diversos laboratórios. O objetivo é fornecer informações que possam auxiliar no melhor entendimento sobre a circulação e importância dessas variantes no país. Se implicam ou não em mais transmissibilidade, mais ou não patogenicidade (capacidade de um agente biológico causar doença)”, relata a virologista.

O infectologista Unaí Tupinambás, também integrante do comitê de combate à doença em BH, observa, por outro lado, que a nova cepa identificada em Manaus, em dezembro, não é totalmente responsável pelo crise no estado. “A situação começou a se deteriorar mesmo antes da presença dessa cepa. Isso se deve aos vários erros das autoridades sanitárias, tanto da prefeitura, quanto do estado, no enfrentamento da pandemia naquela cidade”, opina.
Sobre os estudos genéticos em curso no Brasil, Unaí lamenta terem começado tardiamente, em sua opinião. “Em Minas, devemos ter dados sobre quais são as cepas prevalentes a partir da semana que vem. Se for identificado o tipo de maior transmissibilidade, teremos que rever alguns posicionamentos quanto à flexibilização (das atividades econômicas)”, acrescenta.
Para o infectologista, é necessário que a população entenda, mais do que nunca, que a pandemia está ainda no início, e agora entra na pior fase. “O número de casos está aumentando assustadoramente. A média móvel no Brasil está em 54 mil casos diários e cerca de 1 mil mortes todos os dias”, reforça. Tomando todos os cuidados de prevenção, o especialista diz que é possível fazer frente ao vírus, seja ele mutante ou não.
“Se as pessoas usarem máscara, mantiverem o distanciamento de dois metros, evitarem aglomeração, lavarem sempre as mãos, não tem mutação nenhuma que consiga ser transmitida nesse ambiente”, observa o infectologista.

Entenda como agem as novas cepas 

– Diferentemente das novas cepas identificadas no Reino Unido e na África do Sul, a variante brasileira do coronavírus é mais preocupante, segundo especialistas, porque concentra diversas mutações
– Está comprovada a maior rapidez na transmissão das novas variantes do coronavírus
– Ainda não há comprovações científicas, mas a impressão é de que as variantes também são mais agressivas
– As variantes do coronavírus têm poder maior de infectar crianças e jovens
– Desde o início da pandemia foram identificadas cerca de 800  linhagens do coronavírus. O alerta surge quando um variante ganha poder de transmissão significativo
– Hoje, causam preocupação pelo menos três variantes do Sars-CoV-2, conforme a OMS: a B.1.1.7, identificada em dezembro no Reino Unido; a 501Y.V2, encontrada na África do Sul, e a P.1, que emergiu no Amazonas
– A atenção dos cientistas está voltada a duas mutações em particular: a N501Y, presente nas três variantes, e a E484K, encontrada na da África do Sul e naquela que  circula no Brasil
– Ambas estão localizadas em genes que codificam a espícula, a proteína responsável por interagir com a célula do hospedeiro, o que, na prática, facilita a entrada do coronavírus nas células humanas.

– Sobre a N501Y, há evidências de que possa fazer o Sars-CoV-2 mais transmissível e mais contagioso. O vírus poderia levar mais pessoas ao hospital e elevar o número de mortes, mas não se sabe com certeza, porém, se a mutação resulta em uma versão mais grave da COVID-19.

– Sobre a E484K, compartilhada pelas variantes de Manaus e da África do Sul e ainda por uma outra identificada em dezembro no Rio de Janeiro, chamada de  P.2  –, estudos têm demonstradoque ela pode dificultar a ação  de anticorpos
– Ela altera uma área da espícula chamada RBD (domínio de ligação ao receptor), que se liga ao receptor das células humanas, exatamente onde atuam os anticorpos neutralizantes fabricados pelo sistema imunológico. Com a interferência, os anticorpos perdem a especificidade com o RBD e o vírus tem um mecanismo de escape do sistema imune, que passa a encontrar maior dificuldade para agir
– Quanto mais o vírus tiver liberdade para circular, maior a probabilidade de sofrer mutações
*Reportagem do jornal O Estado de Minas

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