Coiab contesta números de mortes de indígenas por Covid-19 no AM

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Alta médica de indígenas no Hospital de Campanha Municipal de Manaus (Foto: Nathalie Brasil/Semcom)

Números de casos e mortes de indígenas por Covid-19 no Amazonas disponibilizados pelo Ministério da Saúde e divulgados pela FVS (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) divergem dos contabilizados pela Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

O último boletim da Coiab, divulgado na terça-feira, 18, no site da entidade, registrou no Estado 4.323 casos confirmados e 188 óbitos de indígenas desde o início da pandemia.  A entidade usa como fontes boletins informativos, notas de falecimento da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), informações de lideranças, profissionais de saúde indígena e organizações da rede Coiab.

O boletim deste mesmo dia da FVS, que traz os dados da Sesai, do Ministério da Saúde, apontava no Amazonas 3.676 casos e 70 óbitos pela doença nos sete DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas).

De acordo com o boletim da Coiab, 125 povos da Amazônia Brasileira foram atingidos pela Covid-19. Destes, 35 estão no Amazonas. Quanto às 188 mortes de indígenas no estado, 25 povos sofreram alguma perda.

Samela Sateré Mawé, 23, integrante da Associação de Mulheres Indígenas Sateré-Mawé, afirma que é importante acompanhar os levantamentos da Covid-19 além dos apresentados pelos órgãos de saúde oficiais.

“Tem notificação da Sesai e também tem que ver os dados da Coiab. Só pelos dados da Coiab que sempre traz esses boletins informados. No Amazonas já são 188 mortos por Covid-19 e na Amazônia são 579. Então, esses dados sempre têm quer ser revistos, atualizados e comparados com esses órgãos que fazem esse levantamento”, diz.

Samela Sateré-Mawé critica a forma de contagem dos casos pelo Ministério da Saúde.

“O Ministério da Saúde contabiliza apenas casos de indígenas aldeados. E os indígenas em contexto urbano eles não são atendidos, nem notificados e nem contabilizados. É como se a gente saísse da terra indígena a gente deixasse de ser indígena. O que não é verdade, porque a nossa identidade continua sendo a mesma”, afirma.

Vanderlecia Ortega dos Santos, 33, da etnia Witoto, mora no Parque das Tribos, comunidade indígena na região pariurbana de Manaus. Ela afirma que não há suporte dos DSEIs. “As nossas comunidades em Manaus não são atendidas pelos DSEIs. Então, a gente não tem esse apoio do DSEI”, critica.

Impacto das mortes

Além dos registros numéricos, há o que as mortes simbolizam dentro das comunidades indígenas. Para Samela, os falecimentos, sobretudo dos anciãos, significam um perda enorme para a cultura dos povos.

“A morte desses anciãos retrata uma perda muito grande, principalmente para nós jovens que estamos tentando manter a nossa cultura viva, conhecer mais da nossa ancestralidade, conhecer mais do nosso povo. Um idoso que morre é como um livro que se fecha e não se abre mais, porque mesmo que ele tenha vivido por tanto tempo ele não contou todas as histórias que tinha para contar”, relata.

Para Samela, a morte de um ancião também significa que parte do legado cultural está morrendo. “Então é uma grande perda, principalmente para nós jovens. É como se a nossa cultura fosse morrendo a cada dia”, lamenta.

Vanderlecia Ortega afirma que um integrante do povo que morre já representa um grande impacto, pois as comunidades são muito reduzidas no Brasil.

“Os povos indígenas são 0,5% da população brasileira, que corresponde a quase 1 milhão de pessoas. A morte de um indígena impacta a estrutura dessa sociedade. Por exemplo, o meu povo Witoto aqui no Brasil são 100 famílias. Um Witoto que morre desestrutura toda essa comunidade, porque a nossa comunidade é bem pequena”, afirma.

“As mortes que têm ocorrido elas têm sido dos nossos mais velhos, dos nossos detentores dos conhecimentos, detentores das nossas línguas”, lamenta.

A crise sanitária provocada pela pandemia também expõe outros problemas históricos que os povos indígenas enfrentam.

“O impacto das mortes de indígenas por Covid-19 afeta à toda comunidade, à toda população. Principalmente porque nós já somos invizibilizados há mais de 520 anos desde a invasão. As pessoas negam a nossa identidade, a nossa cultura, o nosso direito de ir e vir, o nosso direito das nossas terras, o que é previsto em Constituição no Artigo 231”, comenta Samela.

Falta de informação

A representante indígena afirma que a atuação do Ministério da Saúde ainda deixa muito a desejar, porque falta itens básicos, como alimentação, materiais de higiene, mas sobretudo, informação.

“Nós sabemos que são mais de 270 línguas no país. Mas as informações são passadas, e quando chegam, ainda são passadas somente em português. Passam os comerciais tudo em português, informativos que vão para os Distritos Sanitários de Saúde tudo em português. Mas a gente tem que levar em consideração que muitos povos não falam em português. Não é a nossa obrigação saber o português, o português não é a nossa primeira língua”, critica.

Para resolver o problema, Samela explica que a Associação pretende levar materiais informativos na língua materna.

“Um dos projetos que nós estamos fazendo é esse. Nós vamos levar cartilhas informativas na língua Sateré Mawé, além do vídeo informativo na língua Sateré Mawé, para que o nosso povo possa se informar mais esse novo vírus e se proteger da maneira correta”, afirma.

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Com informações do Portal Amazonas Atual*

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