Explicando | Quem é o cacique Raoni

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Raoni é considerado uma liderança respeitada e reconhecida internacionalmente. (Foto: reprodução)

O cacique Raoni Metuktire, de 90 anos, tem ganhado mais visibilidade nos últimos dias, após ser criticado e citado diversas vezes pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), inclusive na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), e ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz 2020. Nascido em Mato Grosso, por volta de 1930, na vila Krajmopyjakare, hoje chamada Kapôt, Raoni e sua tribo caiapó só veio a conhecer o “homem branco” em 1954, quando se encontrou com os irmãos Villas-Boas (importantes sertanistas e indigenistas do Brasil). Com eles, Raoni  aprendeu o português e, já naquela época, utilizava seu labret (disco de madeira cerimonial em seu lábio inferior, instalado desde a sua adolescência).

Documentário sobre sua vida

O cineasta belga Jean-Pierre Dutilleux gravou um documentário sobre o indígena e seu povo na década de 70. Aclamado pela crítica, o filme “Raoni” teve sua versão em inglês narrada pelo ator americano Marlon Brando. Foi indicado ao Oscar e exibido no Festival de Cannes. No Brasil, ganhou o prêmio de melhor filme em Gramado. Já nos anos 80, Dutilleux apresentou Raoni ao cantor britânico Sting e a dupla rodou o mundo pedindo apoio à preservação das florestas e aos direitos dos povos indígenas.

Constituição de 1988

Enquanto se projetava no exterior ao lado do cantor Sting, Raoni também se tornava cada vez mais conhecido no Brasil. Na Assembleia Constituinte, o líder levou dezenas de guerreiros kayapós a Brasília para pressionar os congressistas a aprovar uma Constituição favorável às comunidades nativas. O movimento, do qual participaram vários outros povos nativos, teve sucesso e abriu o caminho para a demarcação de grandes terras indígenas no país.

Críticas de Bolsonaro

A atual tragédia ambiental da Amazônia, que virou os olhos do mundo para o Brasil, é motivo de angústia para Raoni, considerado uma liderança respeitada e reconhecida internacionalmente. Mesmo diante de toda a sua luta pelas causas dos povos nativos e à preservação da Amazônia, o cacique ainda foi atacado por Bolsonaro em seu discurso na ONU, onde afirmou que ele não representava o pensamento de toda a população indígena, e que ele seria manipulado por governos estrangeiros, sem citar por qual motivo, nem apresentar propostas ou soluções para a situação da Floresta. O comentário do chefe do Executivo brasileiro aconteceu, principalmente, porque o indígena se reuniu em maio deste ano com o presidente da França Emmanuel Macron, também alvo de críticas de Bolsonaro.

Diante das críticas de Bolsonaro, o cacique não deixou por menos. Raoni afirmou que o presidente “não é uma liderança” e “tem que sair” do governo. A fala do cacique se deu um dia após ter ele sido citado pelo presidente na ONU.

Sempre na ativa

Diante dos retrocessos deliberados nas políticas ambientais e indígenas do atual governo federal, favorecendo o agronegócio, os madeireiros e as mineradoras, criminalizando a causa indígena e permitindo o avanço acelerado das queimadas e do desmatamento, o cacique  Raoni se viu novamente em campanha. Em viagem recente, acompanhado de outras lideranças do Xingu e demais reservas, foi recebido com sua comitiva por autoridades em Paris, Lyon, Cannes, Bruxelas, Luxemburgo, Mônaco e no Vaticano. 

Indicação ao Prêmio Nobel da Paz 2020

Recentemente, a Fundação Darcy Ribeiro propôs à academia sueca a indicação de Raoni ao Prêmio Nobel da Paz. “A iniciativa reconhece os méritos de Raoni Metuktire enquanto líder de renome mundial, que, do alto de seus 90 anos, dedicou sua vida à luta pelos direitos dos indígenas e pela preservação da Amazônia”, afirmou o comunicado da Fundação.  O vencedor, no entanto, foi Abiy Ahmed Ali, primeiro-ministro da Etiópia que costurou um acordo de paz com a vizinha Eritreia e colocou fim a uma guerra de 20 anos com mais de 80 mil mortos.

A verdade é que, com ou sem Nobel, o cacique Raoni é uma figura indispensável para a história da luta indígena no Brasil. Em um texto assinado pelo próprio cacique e divulgado em seu site (www.raoni.com), ele sintetiza: “Nós todos respiramos o mesmo ar, nós todos bebemos a mesma água. Nós vivemos nesse único planeta. Nós precisamos proteger a Terra. Se não fizermos isso, os grandes ventos virão e destruirão a floresta. (…) Aqui, a invasão recomeçou. Os madeireiros e os mineiros à procura de ouro não respeitam a reserva. Nós não temos os meios de proteger essa imensa floresta a qual somos guardiões por todos. Eu preciso do vosso apoio. E peço antes que seja tarde”.

Por Cíntia Ferreira, do Portal Projeta

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