Explicando: O terremoto político que acontece em Porto Rico

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(Foto: EFE/ Thais Llorca)

Já são nove dias de protesto por toda a ilha de Porto Rico. A população pede a renúncia do atual governador Ricardo Rosselló depois que conversas, nas quais faz críticas e piadas preconceituosas, foram vazadas pelo Centro de Jornalismo Investigativo (CJI).

O Projeta te explica o que tem acontecido na ilha caribenha.

Como tudo começou?

Quando a CJI vazou 889 páginas de conversas do aplicativo Telegram, onde políticos compartilhavam memes, xingamentos sexuais e piadas. Os diálogos ocorriam em um grupo de 12 homens, incluindo o presidente, que atacavam outros políticos, jornalistas e artistas porto-riquenhos como Ricky Martin.

O que dizem as mensagens?

São quase 900 páginas de mensagens do presidente com 11 dos seus mais próximos aliados, datadas entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019.

A totalidade de mensagens foi conhecida no dia 13, já depois de umas primeiras terem sido reveladas dias antes. As mensagens incluem memes, comentários depreciativos, além de piadas sobre jornalistas, políticos e ativistas.

“A ‘comandanta’ deixou de tomar os seus medicamentos? É isso ou é uma tremenda f**”, escreveu Rosselló sobre a presidente da Câmara de San Juan, Carmen Yulín Cruz.

Em outra mensagem, um dos seus assessores diz que está “com vontade de disparar um tiro” contra ela, com o governador respondendo: “Estaria me fazendo um favor”.

Ricardo Rosselló, governador de Porto Rico, durante entrevista em Nova Iorque, em 2017. (Foto: Brendan McDermid)

Mas os ataques não são só para membros da oposição, há também contra membros do seu próprio partido. Ou outras pessoas anônimas que foram vítimas de seu preconceito. O governador compartilhou uma foto em que cumprimenta um jovem obeso, com quem se encontrou, e escreve: “Não, não estou mais magro, é ilusão de ótica. Ele tem um campo de gravidade muito forte.”

Em uma das mensagens vazadas, Rosselló se refere a um jornalista citando uma cena de sexo oral. Também há frases depreciando mulheres e obesos.

Em outra conversa, um funcionário do governo diz que o cantor Ricky Martin “é tão machista que transa com homens porque as mulheres não lhe servem. Puro patriarcado”.

Martin disse que essas essas expressões são “completamente repudiáveis e denotam o caráter e a personalidade intolerante, arrogante, prepotente, homofóbica, machista e violenta de cada um”.

O governador de 40 anos pediu desculpas por seus comentários e alegou que “o chat era usado para liberar as tensões de dias de 18 horas de trabalho (…) mas nada disso justifica as palavras que escreveu”.

E os protestos?

A mobilização contra Rosselló é uma das maiores demonstrações de repúdio público da história do governo de Porto Rico, um território dos Estados Unidos no Mar do Caribe. Artistas porto-riquenhos têm se juntado aos protestos, como Ricky Martin, Bad Bunny e Benicio del Toro.

Os músicos René Perez (grupo Calle 13) e Ricky Martin no protesto após o vazamento de conversas consideradas ofensivas do suposto Telegram do governador Ricardo Rosselló. (Foto: Thais Llorca)

Apesar de o vazamento dos diálogos ter sido o estopim que levou a população às ruas de San Juan, o país já passava por um terremoto político que abalava a credibilidade do governo.

Em 2017 o furacão Maria atingiu toda a ilha de Porto Rico, causando falta de eletricidade durante meses. A resposta lenta das autoridades locais e federais agravou a falta de água potável, medicamentos e alimentos. Estima-se que três mil pessoas morreram em consequência do furacão.

O Congresso americano alocou cerca de US$ 42,5 bilhões em ajuda humanitária, mas Porto Rico recebeu apenas US$ 13,6 bilhões, segundo o governo federal americano.

O governo de Rosselló também tem sido alvo de investigações de corrupção do FBI. Em julho, dois ex-oficiais do governo e outras quatro pessoas foram presos acusados de roubo, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica.

O que diz o governador?

No domingo (21) Ricardo Rosselló anunciou, por meio de vídeo publicado no Facebook, que não vai se candidatar à reeleição do cargo no ano que vem.

“Escutei-os e os escuto hoje”, disse aos cidadãos em um vídeo publicado no Facebook. “Cometi erros e pedi desculpas”

“Apesar de tudo, reconheço que me desculpar não é suficiente. Ante este cenário, anuncio que não irei à reeleição como governador no ano que vem”, continuou o governador, que também disse que deixará a presidência do Partido Novo Progressista.

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