Canal no YouTube ‘Deixa Ela Falar’ dá voz às mulheres manauaras

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Yolanda Bento, do Portal Projeta – Se você é mulher, aposto que já teve a sua fala interrompida, ou não teve a chance de expressar o que sentia e pensava. Se você é mulher, provavelmente já sofreu algum tipo de preconceito, ou assédio. A Bia Nobre é mulher, e já passou por tudo isso. Mas, insatisfeita com esses comportamentos reproduzidos pela sociedade, resolveu criar um projeto que dá voz às mulheres. Assim, nasceu o canal no YouTube ‘Deixa Ela Falar’.

Há pouco mais de um ano, a Bia percebeu que as mulheres não estavam sendo ouvidas.

“Eu vivenciei situações humilhantes onde eu não era ouvida e muito menos podia me expressar do jeito que eu gostaria. diferentemente dos homens que me rodeavam, eles já podiam se expressar do jeito que queriam e eram mais ouvidos”, explica.

Com consciência de seus privilégios e sabendo do espaço em que ocupa na sociedade, a profissional de Relações Públicas começou a refletir sobre as mulheres que viviam em condições diferentes às suas. “Porque ainda que eu viva em uma situação desigual em relação ao homem, existem mulheres que estão ainda mais abaixo do que eu. Porque eu sou uma mulher de classe média, sou branca… E eu percebi tudo isso ao mesmo tempo por conta de uma situação que aconteceu comigo”, reflete.

Esse incômodo foi a força que Bia precisava para criar um espaço onde ela pudesse falar sobre isso com outras mulheres. “Eu usava as minhas redes sociais, mas eu vi que ali ainda não era o local certo pra eu conversar… Eu achava que tinha que ter algo mais específico, pra um nicho mais específico. E eu tive a ideia de criar esse canal pra eu poder falar e poder convidar pessoas que tivessem mais respaldo pra falar de temáticas que envolvam a gente [mulheres] na sociedade”, diz Bia.

Com vídeo novo toda semana, o ‘Deixa Ela Falar’ é o projeto de uma mulher para outras mulheres, onde temas relacionados a políticas públicas, desigualdades sociais e de gênero são abordados. Tendo como público principal as mulheres e pessoas em situação de desigualdade.

Os temas são úteis e informativos, e não são só questões ideológicas, segundo Bia. “A ideia do canal é tornar clara as coisas que já existem sobre políticas públicas e debater assuntos que estão em alta”, explica.

“Tanto é que eu já falei sobre o SUS, sobre violência contra mulher, sobre rede de apoio a mulher que sofre violência. Já falei sobre aborto, políticas públicas. Eu procuro falar de temas que sejam úteis, não só em questão ideológica, né”

O objetivo inicial do canal era receber apenas convidadas, do gênero feminino, mulheres trans ou pessoas que de alguma forma se identificassem como mulher. Por que quem melhor para falar sobre esses assuntos do que mulheres, não é? Mas, a Bia percebeu que estava minando muito o debate ao não incluir homens no diálogo.

A ambição de Bia é que o projeto seja não só um canal, e sim um espaço que conecte quem tem sede por informação útil.

Conhecimento em movimento

Emocionada, Bia contou ao Projeta o maior ensinamento que o canal já lhe deu. “Com certeza conhecer realidades diferentes e aprender muito com outras pessoas. Cada convidada ou convidado traz uma bagagem de vida e experiência… Já chamei psicólogas, professoras, sociólogas, advogadas, nutricionistas, historiadoras… Eu aprendi muito”.

Bia define o projeto com uma expressão: “Conhecimento em movimento”. Porque, para ela, saber das coisas sem utilizar o que se sabe não serve de nada. “Agora você saber e repassar isso de uma forma ÚTIL, é maravilhoso. Eu tô utilizando minhas habilidades como comunicadora e tô intermediando debates entre pessoas que são especialistas”, continua.

‘Eu tô em construção’

“Eu sou a Ana Beatriz Nobre, mas eu prefiro que me chamem de Bia Nobre. Tenho 26 anos e sou formada em Relações Públicas pela Universidade Federal do Amazonas. Tenho um filho de três anos, eu sou casada e sigo o espiritismo desde que eu era criança”, é assim que a mulher por trás do ‘Deixa Ela Falar’ se descreve.

Mas a Bia é muito mais que isso.

Comunicativa (pra não dizer falante), Bia gosta de se sentir útil. É apaixonada por temas que envolvem as desigualdades e injustiças sociais e já participou de vários projetos voluntários. É do tipo de gente que faz a diferença no mundo e acredita que conhecer outras pessoas e realidades contribui para a formação de opiniões.

“Eu posso dizer que eu sou uma pessoa muito sociável, eu gosto de lidar com pessoas. Eu não sou do tipo que se isola, que não gosta de falar. Eu gosto muito de falar, como você já percebeu, né? Me jogue em qualquer lugar que eu dou um jeito de me enquadrar ali”

Engajada no ativismo social, Bia já foi muito xingada nas redes por conta dos conteúdos que publica, mas não se incomoda nem um pouco com isso. Ela diz que é um elogio chamá-la de ‘justiceira social’.

Bia Nobre e o convidado Louis Azevedo, que falou sobre sua realidade como homem negro trans no vídeo de setembro do ano passado.

Bia sonha em poder trabalhar somente com o que gosta, produção de conteúdo. Hoje, ela precisa dividir seu tempo com o trabalho de marketing em uma empresa privada. Por conta disso, não consegue dar a prioridade que gostaria ao canal.

“Como infelizmente a produção de conteúdo não é ainda o meu ganha pão, quer dizer, não é uma forma de eu ganhar dinheiro, eu não consigo dar prioridade que eu queria. Porque enfim eu tenho um filho pequeno, né. E o capitalismo me pede que eu trabalhe em outras coisas pra poder manter minha casa”, explica.

“Eu to em construção, cara. Eu tenho muita coisa pra melhorar”, conclui Bia.

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