Manifestação em repúdio aos cortes reuniu gerações de estudantes e educadores em Manaus

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Se nos últimos anos as reclamações quanto ao declínio da mobilização estudantil eram contínuas e sem efeito, fica então marcado na história recente do país o dia 15 de maio como uma trégua para o que costumava ser o movimento estudantil nos últimos tempos.

A data representa grito relevante dos estudantes do ensino médio, superior e pós-graduação contra um bloqueio que já efetuou o valor de R$ 7,4 bilhões no Orçamento deste ano do Ministério da Educação. A pasta conta com um orçamento de R$ 149 bilhões para dar conta do ensino básico, médio e superior.

Em Manaus os efeitos foram especialmente fortes na maior potência do Estado e da região. O corte na Universidade Federal do Amazonas impossibilita iniciação científica para os graduandos e coloca em risco até mesmo recursos básicos como energia e água.

O maior laboratório a céu aberto do mundo, a Amazônia é, sem dúvida, o metro quadrado mais fascinaste para aqueles que buscam na própria natureza as soluções para os problemas humanos. Com a maior oferta de biodiversidade do mundo estrangeiros de todas as partes do mundo buscam Manaus para avanços em pesquisas nas áreas biológicas, exatas e humanas.

Tsunami da Educação

A suspensão de bolsas para mestrado e doutorado pela Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), foi também uma das medidas do atual governo que recebeu repúdio constante da comunidade acadêmica.

A entidade é substancial para as pesquisas em nível de pós-graduação no Brasil e perdeu R$ 819 milhões do total de R$ 4,1 bilhões de verba não obrigatória, as bolsas que ainda não foram liberadas para pesquisadores já aprovados também foram suspensas. É o fim da carreira, pesquisa e consequentemente a solução de muitos gargalos que somente a ciência poderia fechar.

Luta Amazonense

O percurso manauara iniciou manhã do dia 15, dentro das dependências da Ufam. Seguindo um carro de som estudantes marcharam acompanhados de professores que também entoavam gritos de guerra contra o boicote na educação pública do país.

Em seguida, pela parte da tarde, após aulas públicas que explicavam a urgência da manifestação a população ocupou a Praça da Saudade a partir das 15h para caminhar pelo Centro da cidade de Manaus com cartazes e gritos de ordem manifestando indignação.

Uma mobilização entre artistas também foi organizada pelo Comando de Greve Estudantil no local onde a caminhada encerrou: a Praça do Congresso, local propício para a luta já que uma das mais importantes casas de ensino da capital manauara está o Instituto de Educação do Amazonas (IEA).

Neste mesmo local a mobilização cultural também se manifestou. Nomes de representatividade importante e alavancados pela academia como Karen Francis, Stone Ramos, Vivian Gramophone, Victor Xamã, Magaiver e Milton da Cabocrioulo ocuparam também com o ambiente de reflexão e luta que circulava pela espaço público.

Sérgio Andrade é cineasta e esteve presente no ato. Ele acredita que a Universidade está muito ligada com a cultura e também a democracia. “Arte fascista não existe (…) a classe educacional está indignada, um líder deve enaltecer a educação e o nosso presidente tá fazendo o contrário, está desrespeitando e eu acho isso gravíssimo, as pessoas expressam com muita criatividade, é uma ação e uma reação que está acontecendo”, pontou o artista.

A questão econômica também é observada por Sérgio, mas acredita que a prioridade é estrutural e não pode ser deixada de lado. “Ele deve cobrar dos banqueiros as dívidas mas não deve sacrificar a educação pra isso. Precisamos que o congresso nacional e o judiciário perceba que o Brasil não pode ser prejudicado assim, isso é inconstitucional e se a gente contar com esses poderes para um efeito de sensibilização de que a educação é fundamental demais poderemos ter efeito com as mobilizações”, explanou Sérgio.

Norcirio Queiroz é professor da Ufam e também esteve presente no ato. “Eram estudantes, professores, ver tanta gente em prol da educação.. até antigos alunos, isso pra mim é valioso, marca um momento de união enquanto a situação é caótica, vê-los com essa consciência política isso é gratificante como educador.. não era um evento de caráter partidário, as pessoas simplesmente foram ás ruas numa quarta-feira a tarde, no Centro (…) Me senti honrado de estar vivendo esse momento enquanto docente, já fui aluno, todos eles já foram, os políticos e autoridades que estão tomando ou deixando de tomar decisões”, critica o psicólogo.

Projeção

Questionado sobre o comportamento dos manifestantes, Norcirio revelou também atitudes de manifesto que causaram desagrado. “No final assisti a uma queima de boneco na figura de um político e foi quando senti vontade de ir embora, achei que fugiu da proposta. O evento foi pacífico, não houve violência mas o que aquele ato representa não me fez bem, me incomodou, até esse momento estava bacana pra mim”, narrou o professor.

“Estamos falando de um governo que chega muito perto de uma ditadura, um governo autoritário que chamou quem participou de idiota a ponto de não saber fazer conta. Acredito no efeito da união no poder dessa indignação coletiva, antes eu não acreditava tanto nisso mas agora mas vejoque essas movimentações acabam surtindo efeito, não diretamente com o governo mas como resistência. É importante que haja oposição, mesmo que o governo não ouça, porque é um governo que não tem a mínima intenção de ouvir mas que pelo menos incomode, que mexa e faça repensar algumas coisas”, finalizou o professor de psicologia.

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