Um fotógrafo amazonense na maior mobilização indígena do mundo

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(Foto: Christian Braga)

De um lado, os edifícios da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde toda a estrutura social brasileira é articulada por representantes do povo. De outro, mais de quatro mil indígenas, representantes de 305 povos de todas as regiões, reforçavam cinco séculos de resistência e um lembrete: também somos Brasil.

Durante três dias no fim de abril, centenas de barracas montadas em frente ao Congresso Nacional davam início ao 15º Acampamento Terra Livre (ATL). O movimento popular foi o primeiro em grande escala na capital federal após a posse do presidente Jair Bolsonaro – que acumulava ameaças à questão indígena antes mesmo de assumir o Executivo.

O fotógrafo amazonense Christian Braga viaja há cinco edições da ATL para capturar e distribuir registros da luta indígena mundo à fora. Ao Projeta, ele narrou a experiência na mobilização de maior contraste quando o assunto é a realidade étnica brasileira.

“Tem cinco anos que eu vou para as mobilizações, que eu contribuo para esse processo todo. Tem gente que tem mais tempo, tem gente que fundou isso aqui. É uma ação que já dura 15 anos, então cinco anos dentro desse tempo não é muita coisa. É um tempo que você já começa a refletir, a se conectar, a criar relações importantes, a entrar mais em alguns detalhes, a participar mais ativamente. Você começa a se entender parte do processo e que, todo ano, você é sim importante para estar naquele lugar junto daquelas pessoas.

Esse ano foi um ano de muita expectativa. A gente vem de uma queda de direitos, com ameaças à demarcação, o aumento de mortes de indígenas, um retrocesso muito grande na questão indígena. Esse seria o ano que traçaria as diretrizes e a direção política sobre essas pautas. Essa mobilização, então, foi como um “teste”, um aviso de “cheguei, estou aqui”.

(Foto: Christian Braga)

Foi a primeira manifestação popular mesmo em Brasília contra o governo. O Bolsonaro fala muito contra toda essa questão indígena e ambiental, mas não tinha nenhuma ação concreta dele, como também não tinha nenhum projeto a favor, apenas o falatório. Foi um aviso: ‘caso vocês queiram fazer algo, vocês precisam ver e entender o tamanho e a dimensão desse movimento que é tão forte, que todo ano se reúne, que sempre tá preparado para lutar com tudo o que for possível’.

O que tiver ao alcance deles, eles vão fazer.

A mobilização é algo muito especial, porque ela mostra um Brasil que existe, um Brasil que luta, um Brasil que é diverso, um Brasil que fala muitos línguas, tem muitas cores, que tem sua própria identidade. Um Brasil que a gente sabe sim que tem um brilho, que tem uma identidade, uma característica, que ele é Brasil por ser diverso. Aquele acampamento mostra, na verdade, o que é o Brasil.

(Foto: Christian Braga)

Muito do que se compreende é que o país tá dentro daquelas estruturas de governo. Mas ali, naquele acampamento, você olha o Planalto, você olha o Congresso Nacional, você olha a Catedral, você olha Brasília e não identifica isso. Minhas fotos têm isso para mostrar que não, que talvez aquele território não seja construído de um verdadeiro Brasil. Aquele acampamento se mostra muito mais brasileiro do que aquilo ali.

Além da própria resistência, o acampamento reconfigura essa percepção. (…) Para um fotógrafo é muito difícil criar coisas novas sempre em um mesmo lugar. Mas eles são tão incríveis, que fazem a gente se reinventar na narrativa. Todo ano eu me renovo.

Ali representa não só uma luta, mas representa uma cultura, representa uma diversidade, representa o que a gente é. As pessoas ali unidas em coletivo, se ajudando ao mesmo tempo que mais grupos se formam. A luta, a união, o canto, tudo fortalece para aquelas pessoas estarem ali.

(Foto: Christian Braga)

Não é fácil sair de uma aldeia por quatro dias. Tem indígena que passa mais dias viajando para chegar na mobilização do que no Acampamento, de fato. Para ele é importante, porque ele entende que a presença dele é uma força naquele momento. Com isso, outros grupos se conectam nessa força, nessa resistência coletiva, que faz a mobilização ser sempre tão forte.

Eu acredito que hoje o Acampamento é um exemplo de resistência, de ativismo, exemplo de ação e de planejando para todos os movimentos progressistas que têm no Brasil e para outros movimentos que cobra algum direito. O movimento indígena é o que há de mais incrível em relação a isso.

É uma energia de incertezas, mas ao mesmo tempo de conexão, de ver também outras lideranças, mais representatividades dentro do movimento indígena. Você vê que a espiritualidade é uma forma de resistência, uma forma de você se fortalecer, de conseguir lutar.

A luta sempre foi muito intensa principalmente contra o estado, que é genocida e quer acabar com a resistência deles. Não é apenas um ‘vou retirar seus direitos’ é um ‘ vou retirar a sua vida’.

(Foto: Christian Braga)

Falar de território para a gente é como alugar uma casa, se mudar do centro para a Zona Norte, da Zona Norte para a Zona Sul. Para eles é tirar a vida e tudo o que eles construíram, toda a família, todas as relações, todo um mecanismo que funciona somente quando é em coletivo.

Eu vou olhando e participo de fora, e vejo o motivo de eles se entregarem tanto: É lutar ou morrer.

(Foto: Christian Braga)

Sobre o fotógrafo

(Foto: Arquivo Pessoal)

Natural do Amazonas, Christian Braga tem 27 anos, é fotógrafo e documentarista. É membro fundador da rede de Jornalistas Livres e fez parte da equipe da Mídia Ninja de 2013 à 2015. Desde 2013 ele realiza trabalhos em territórios indígenas no norte do país, participando de expedições e imersões documentais, além de acompanhar por cinco anos consecutivos a Mobilização Nacional Indígena em Brasília.

Em 2014 participou do projeto OFFside Brasil, organizado pela agência de fotografia Magnum Photos, para fazer a cobertura alternativa da Copa do Mundo e, em terras Yanomami, realizou a documentação fotográfica da expedição pelo limite leste da maior terra indígena demarcada do Brasil, em parceria com o Instituto Socioambiental e Canon CPS.

Em 2017 produziu um documentário sobre indígenas Guarani com albinismo no sul do Pará em parceria com a Al Jazeera (AJ+) e também, em parceria com Greenpeace, o show da indígena Djuena Tikuna no Teatro Amazonas em Manaus. Foi convidado a participar da 8 Mostra SP de Fotografia (SP) e do Paraty Eco Festival (RJ).

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