Nova geração de escritores ganha espaço em Manaus

308
Segundo estudos, 30% dos brasileiros nunca compraram um livro
Mariah Brandt, Portal Projeta – A literatura é um dos elementos que desperta desde cedo nos indivíduos a capacidade de imaginar: se transportar pra outros locais e realidades sem precisar sair de onde está.
Na rotina das famílias, por exemplo, é por meio dela que se “desconecta” as crianças do mundo real, para viver uma outra história antes de, finalmente, caírem no descanso do sono.
Com o desenvolvimento do intelecto somos capazes de, não somente absorver temas e enredos apresentados, mas também de criar as nossas próprias narrativas. E assim se mantém gerações de escritores, que a cada linha abrem caminhos para seus leitores.

Clube da Madrugada

Na História do Amazonas está marcado o movimento artístico-literário “Clube da Madrugada”. Aconteceu na década de 1920 e representou uma renovação no que se sabia na região sobre literatura, música, artes plásticas e na maneira como se pensa a Amazônia.
(…) O Clube da Madrugada nunca possuiu sede própria: os escritores  se reuniam embaixo de um mulateiro [grande árvore da Amazônia] na Praça da Polícia [Praça Heliodoro Balbi]. Sua existência transcendeu limites geográficos dessa Praça. E, hoje, é reconhecido não apenas no Brasil, mas em várias parte do mundo (…) – O Pioneiro, Brasília.
Foi um movimento que já naquela época se mostrava contra o provincianismo e conservadorismo da sociedade amazonense e, como é comum em crises de democracia, houve perseguição por se tratar de uma plataforma para disseminar pensamentos livres.

Anos 2000

Com o acelerado crescimento das tecnologias é comum ouvir que “nada mais é como antigamente”. De fato, o consumo de livros caiu drasticamente. Segundo pesquisa do Ibope Retratos da Leitura de 2016, 44% da população brasileira não lê e 30% dos brasileiros nunca sequer comprou um livro.

Ainda que os dados sejam pessimistas, jovens escritores amazonenses usam as alternativas que lhe são acessíveis para colocar em circulação suas obras, sejam em plataformas digitais, impressão do próprio bolso e distribuição pelas ruas da cidade.

Trabalhos Locais

É o caso de Victor Kuhn e Paloma Silva, que publicaram juntos um livro duplo contendo duas obras dentro de uma só, divida nos fanzines ‘Fuga e Liberdade’. Os artistas não montaram selo ou tiveram apoio de editora. “Fui na gráfica e pedido pra imprimir, dividimos os gastos e saímos juntos distribuindo para o público que se interessa”, contou Victor em entrevista.

Recém graduado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, Victor trabalha na Defensoria Pública e concilia seu trabalho literário em seu tempo livre, como um hobby. O livro é dividido entre os textos de Victor e Paloma.

“São cinco poemas meus. Em dois deles eu falo sobre amor, abordei a masculinidade e os papéis de gênero em outro. Também falo sobre felicidade e escrevi um poema sobre o sentimento de culpa”, conta.

Já os poemas de Paloma, intitulados de “Liberdade”, trazem textos que tratam também de amor, mas focam nas questões como desigualdade social, reflexões sobre consciência coletiva e um apanhado de suas experiências em forma de síntese.

Paloma também desenvolve um projeto social chamado “Salvando Mentes”, que leva arte e cultura para comunidades, instituições e abrigos. Ações como oficinas acontecem uma vez no ano ou a cada seis meses.

‘E o Menino lá sabe Escrever?’

João Hime é estudante de jornalismo e produz regularmente um evento chamado “Ruídos Afrescos”, onde vários segmentos da arte local são apresentados. Seu livro foi lançado nesta sexta (26), na Banca do Largo, uma das poucas que ainda resistem na capital amazonense, localizada bem ao lado do maior símbolo cultural da cidade: o Teatro Amazonas.

O livro de João é uma reunião de textos que foram acompanhando seu amadurecimento. “Selecionei o que eu acredito que seja o melhor que escrevi entre 2013 e 2018, juntei e mandei pra uma editora e foi aceito. A editora se chama Multifoco e é do Rio de Janeiro. Estão cobrindo a impressão e distribuição. Fiquei muito feliz de conseguir realizar isso”, afirmou.

Para se revelar como escritor, optou por uma página na internet onde postava seus trabalhos. “Reuni os que eu achava melhor e fui selecionando por segmentos. Não falo muito sobre amor mas foquei em situações que aconteciam comigo ou me chocavam de alguma forma no mundo. Já tive problemas alimentares, então escrevi poemas sobre anorexia. Falo também sobre amizade e sobre o sentimento de não-pertencimento”, explicou.

 Devaneio: Amores vividos, histórias inventadas

Rebeca Beatriz escreve e publica seus textos desde 2015, quando criou seu blog e, com o tempo, foi ganhando atenção do público online. Já colaborou em grandes sites nacionais como Beco do Poeta, 1/4 de Café e O Segredo.

“Meus textos falam sobre histórias que eu vivi em relacionamentos, outros são sobre histórias que ouço e coisas que eu gostaria que eu idealizo ou gostaria de viver. É muito aleatório meu processo. Ás vezes vejo uma cena num filme e procuro explorar aquilo de maneira diferente. Para eu começar a escrever, eu lia algum livro e não gostava do final e criava o final diferente, fui fazendo e assim ficou. Não é regra. Algumas coisas que não consigo dizer em voz alta, quando algum amigo desabafa, alguns até pedem pra fazer um texto sobre tal questão que estão vivendo”, descreveu.

No segundo semestre deste ano Rebeca lança primeiro livro, com homônimo ao blog, Devaneios: Amores Vividos, Histórias Inventadas. Será a primeira vez que ela sairá do ambiente digital para ter seus trabalhos de maneira física.

“Gosto muito do ambiente online, porque posso conhecer as pessoas, mas fiz uma pesquisa sobre o mercado editorial e decidi que queria a versão impressa pra explorar novos espaços”, completou Rebeca, que terá seu livro lançado pela editora Lendari.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui