MEC negar ditadura é tentativa de Vélez ‘ficar bem aos olhos do chefe’, avalia cientista político

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Foto: Marcelo Cadilhe

A declaração do ministro da Educação Ricardo Vélez na última terça-feira (3) revelou a intenção de promover mudanças nos materiais didáticos das escolas no que for referente ao período do golpe militar de 1964 e a ditadura que se instalou no país pelos 21 anos seguintes.

O titular da pasta anunciou que a revisão deverá ser feita de maneira progressiva para “que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi sua história”, disse em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Para comentar com propriedade sobre o tema o Portal Projeta conversou com o advogado e cientista político Helso Ribeiro. Confira:

Projeta: Para o ministro não houve golpe ou ditadura e sim um regime que partiu de uma “decisão soberana da sociedade brasileira”. O que o senhor pensa sobre a colocação?

Helso: Parte do governo Bolsonaro ainda não saiu do palanque das eleições. Se você perguntar para 100 cientistas políticos no mundo afora eles vão te dizer que sim, houve uma ditadura militar no Brasil, essa ditadura ela trouxe atitudes que são dignas de tristeza e trouxe também avanços, é preciso considerar que também teve ganhos. A Zona Franca de Manaus que serve como redenção econômica para nosso Estado foi um dos objetos da Ditadura Militar em 1967.

O vice-presidente que é general lamentou isso, ele falou que não era necessário. Eu acredito o presidente esteja ancorado da assessoria dos filhos dele ainda não tenha descido do palanque. O Brasil está com crescimento pífio na economia, já se sabe que esse ano o crescimento não vai superar 2% o número de desempregados continua crescendo, o governo parece que quer um palanque para ter espaço na mídia mas só falando mal, falando besteira.

Projeta: Se há tantos registros de torturas, mortes e desaparecimentos, porque o assunto ainda gera tanta divergência de opiniões?

Helso: Se a pessoa tiver frieza de análise, é só pegar declaração de cientistas políticos, não precisa ser do Brasil, até melhor que não seja, pessoas ligadas a ONU (Organização das Nações Unidas), OEA (Organização dos Estados Americanos), organismos internacionais, pode ser de esquerda, de direita, de centro. Dos cem analistas sociais, de uma centena de constitucionalistas, eles vão dizer que sim, houve sim uma ditadura militar, quebra de uma ordem jurídica existente. Volto a salientar, Itaipu Binacional foi uma obra da época militar, a ponte Rio-Niterói, a usina atômica de Angra dos Reis. Não vale a pena discutir isso, parece que não tem o que fazer, que está voltando para campanha política. Acredito que seja desnecessária esse tipo de conduta.

Projeta: Veléz disse ainda que os livros didáticos distribuídos pelo MEC vão ser revisados, para conter uma visão histórica “verdadeira” dos fatos. Qual sua opinião?

Helso: O que eu vejo é que falta de ações na nossa educação, que já é triste ao longo de anos, não é no governo Bolsonaro apenas, o Brasil é um dos piores países em termos de educação se você pensar em América do Sul ainda estamos lá atrás. A nossa irmã lá no sul, a Argentina, tem cinco prêmios Nobel da Paz. As olimpíadas de conhecimento mostram que estamos defasados. Adoraria que o MEC promovesse ações pra combater isso e não um revisionismo bobo, isso não vai acrescentar em nada na formação educacional fraquíssima do país.

Projeta: Recentemente figuras importantes do governo saíram em defesa da ditadura militar. Uma ordem para celebração dos 55 anos da data nos quartéis, por exemplo, foi feita pelo Exército, a pedido do presidente. Isso pode afetar a democracia?

Helso: Parte do governo Bolsonaro ainda não saiu do palanque das eleições. Até o ministério da defesa em 2014 já tinha considerado que houve uma ditadura. É como se a igreja católicas – guardando as proporções, claro, negasse que a inquisição cometeu erros. Cometeu erros, condenou Galileu, eles pedem desculpas, ocorreu lá atrás. Então uma atitude dessa do ministro eu não consigo ver como algo positivo. O presidente Bolsonaro ganhou, que governe da melhor forma possível. Agora não dá pra desconhecer ou esquecer fatos pretéritos. Uma ideia dessa é extremamente lastimável.

Projeta: Como você avalia o efeito político dessas declarações?

Helso: Na verdade, se você analisar as declarações antes da viagem para Israel o presidente falou que realmente o MEC está passando por dificuldades e que iria analisar se o ministro permaneceria ou não. Em menos de três meses já foram trocados 13 postos-chaves de ministros e secretários executivos, o que eu vejo é uma espécie discurso pra ficar bonito aos olhos do chefe, o Bolsonaro sempre pautou o discursos dele nessa direção ele sabendo que tá na corda bamba. Só consigo ver dessa forma dada a pequenez da discussão, é muito pequena essa discussão. É como se o ministro estivesse dizendo “Olha só, Bolsonaro, eu sou seu capataz”.

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